A gestão de recursos hídricos em ambientes industriais e urbanos exige uma compreensão profunda da capacidade de resiliência dos corpos receptores.
O fenômeno da autodepuração é, em essência, um conjunto de processos físicos, químicos e biológicos que interagem para reduzir a carga poluidora de um curso d'água, buscando o restabelecimento do equilíbrio ecológico original (JORDÃO; PESSÔA, 1995).
No entanto, essa capacidade não é infinita e depende de variáveis cinéticas que regem o balanço de oxigênio.

O processo baseia-se principalmente no balanço de oxigênio no corpo hídrico. A autodepuração ocorre devido ao antagonismo entre dois processos principais:
Streeter-Phelps descreve a variação do déficit de oxigênio ao longo do tempo (ou distância, em sistemas lóticos) como uma função das taxas de desoxigenação e reaeração.
A curva resultante dessa interação é conhecida como a Curva de Depleção de Oxigênio. Ela demonstra que, imediatamente após o ponto de mistura do efluente com o corpo receptor, o déficit de oxigênio tende a crescer até atingir um ponto crítico.
Neste local, a taxa de consumo é exatamente igual à taxa de reposição, representando o nível mínimo de OD que o rio atingirá (VON SPERLING, 2014). A partir desse ponto, se a capacidade de reaeração for predominante, inicia-se a fase de recuperação.
Ao longo do curso do rio, a autodepuração se manifesta em zonas distintas, cada uma com características biológicas e químicas específicas:

Para avaliar a depuração de um corpo hídrico, avalia-se também outros fatores que refinam a análise técnica:

A preservação dos nossos recursos hídricos exige técnica e compromisso. Entender a autodepuração é reconhecer que a intervenção humana deve ser baseada em dados científicos e responsabilidade ambiental!
Referências Bibliográficas
ANDRADE, L. N. Saneamento. São José do Rio Preto: Cultura Acadêmica, 2010. (Usado para caracterizar a Zona de Degradação).
JORDÃO, E. P.; PESSÔA, C. A. Tratamento de Esgotos Domésticos. 3. ed. Rio de Janeiro: ABES, 1995. (Usado para a definição geral de autodepuração).
NUVOLARI, A. Esgoto Sanitário: Coleta, Transporte, Tratamento e Reúso Agrícola. São Paulo: Blucher, 2003. (Usado para a cinética da desoxigenação e o coeficiente K1).
STREETER, H. W.; PHELPS, E. B. A Study of the Pollution and Natural Purification of the Ohio River. (Criadores do modelo matemático de 1925 citado no texto).
VON SPERLING, M. Estudos e modelagem da qualidade da água de rios. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. (Principal referência para a Curva de Deflexão de Oxigênio, Ponto Crítico e modelagem matemática).